Você curte ONG?

Pouco a pouco vamos substituindo a eterna falta de informação. Constantemente ficamos admirados pela quantidade de dados que encontramos nos EUA e Europa, sobre qualquer assunto. Mas logo seguimos nossas vidas e não nos mexemos para começar a coletar informações aqui.

Ou então acontecem aquelas pesquisas incriveis feitas no Brasil, mas que por falta de planejamento (ou interesse) flutuam solitárias no mar de poucos dados brasileiro. Não se faz uma segunda e terceira versão, portanto não há série histórica, e então não se pode confirmar o dado, nem a tendência, nem o crescimento ou a queda. É só um dado solitário.

No nosso campo começamos a desenvolver coisas interessantes. A FASFIL é o nosso censo e portanto sabemos que existimos, quantos somos e como estamos. A CETIC gera também com uma regularidade saborosa, dados sobre a tecnologia de informação das ONGs. Foi lá que descobrimos, não em uma, mas em 3 pesquisas sequenciais, que o indivíduo é quem doa mais para as organizações.

IDIS, GIFE, Filantropia, ABCR, nossas amadas organizações representativas seguem também o caminho do coletar, acumular e dissecar dados. O filhote recente do IDIS sobre o perfil do Doador, é minha mais querida pesquisa recente, mas já está completando dois anos. No Instituto Doar escolhemos o caminho das misses. Explico. Queremos dar destaque a elas, as ONGs. Queremos que brilhem e que a população em geral se apaixone. Por isso criamos o Melhores ONGs, que entra na segunda edição, numa parceria com a Revista Época, o que permite que o dado se esparrame pelo mundão, para além de nosso mundinho.

Dois filhotes recém nascidos, no último dia de doar, (como tudo que nasce no Instituto Doar) lidam com essa coisa de Miss também. As ONGs transparentes (as primeiras 40 estão no ar) que tem todo um cuidado em querer informar para as pessoas comuns seus números, dados e time. Ficam expostas por decisão própria, e merecem o holofote, só por isso.

Já outras 55 ONGs subiram ao palco pra mostrar o quanto gostam delas. E é esse, finalmente cheguei, o tema de hoje: as ONGs mais curtidas do Brasil. Esse dado não tem subjetivismo. É um número claro, um ranking matematicamente exato. As mais curtidas são as que o pessoal do facebook decidiu clicar e ficou lá registrado seu ato.

Nos dedicamos a colocar todas as ONGs que tem acima de 100 mil curtidas no ranking. Se você conhece alguma que não está lá, me avise. Além do número de curtidas, adicionamos um link para a página no face e outro direto para a página de doacão. Ah sim! Se a ONG não tem página de doação no site, não entrou na lista. Algumas boas ONGs ficaram de fora, mas as portas estão abertas, assim que coloquem seu link para doação. Se tem quem curta, que aprendam a ter quem doe!

Tem algumas coisas que me surpreenderam nesses números. A primeira é o nosso eterno tema: captação. Qualquer ONG que tenha mais de 100 mil curtidas deveria ter no mínimo 1000 doadores mensais. Essa métrica é uma estatítica empírica mas bem real que tenho com meus alunos e clientes de consultoria. Olhando a lista, fica evidente que isso não ocorre. E não ocorre porque a maioria delas não enxerga uma curtida como um lead. Um email como um potencial doador. E com isso ficam “famosos” e sem grana.

Um coletivo que tem claramente essa situação de forma generalizada é o das ONGs que lidam com proteção aos animais. Nada menos do que 15 entre as 55 ongs mais curtidas são desse segmento. E não mais do que uma ou duas são suficientemente sustentáveis. São ONGs com alta capacidade de mobilização e baixa estruturação para obter doações. É como ter uma Ferrari em casa mas não passa no posto para colocar gasolina. E aí reclama que esse carro não anda. Algumas não-surpresas que merecem ser sempre ditas: Greenpeace e Médicos sem Fronteiras, no Brasil assim como no mundo, estão entre as ONGs mais curtidas, mais reconhecidas e também com mais doadores. Estas sim tem até mais de um doador para cada 100 curtidas.

Das brasileiríssimas, Doutores da Alegria e SOS Mata Atlantica estão no pódio, ambas com um investimento tangencial em doadores individuais. No caso da SOS há uma iniciativa com cartões que altera essa curva para mais. No caso dos Doutores, uma iniciativa bissexta em relação a doadores individuais, ofuscada pelas granas dos patrocinios empresariais.

As ONGs de celebridades alcançam curtidas herdadas pela admiração a quem as dá nome, como acontece com Neymar, Luiza Mell, Ayrton Senna. E podemos incluir aí a celebridade Ronald McDonald. O que se vê é que também aproveitam pouco de sua fama para gerar doadores. E olha que seus fãs fariam isso com gosto. Somos eternos adolescentes comprando camisetas dos nossos ídolos do rock. Mas precisam colocar as camisetas a venda, e compraremos.

Eu adoro listas. Eu poderia falar muito mais sobre esta, sobre a das ONGs transparentes, sobre as melhores ONGs … e se conversarmos 5 minutos começo a fazer minha lista de TOP5 de qualquer coisa que você quiser, como naquele filme que esqueci o nome. Mas agora eu quero falar pra quem não se vê, pelo menos por enquanto, em alguma destas listas: O objetivo delas não é criar uma elite inatingível, e sim que sirvam de referência, inspiração, modelo.

Como quando vemos o Oscar. Aquilo gera uma estatueta cada ano pro melhor filme, melhor diretor, melhor atriz. Mas cada categoria tem lá suas 5 concorrentes, que estão encantadas de estarem ali. E centenas de outras atrizes estão animadíssimas em serem a próxima indicação e para isso se dedicam e fazem filmes e ensaiam e se esforçam. E para cada atriz em Hollywood devem haver milhares de atrizes nas escolas e teatro e cinema do mundo todo e por mais que neguemos, cada um de nós quer um prêmio, um reconhecimento, chegar lá, atingir o Olimpo.

Quem não curte um prêmio?

Então minha contribuição, pouco acadêmica, meio festiva, mas muito bem embasada, é no sentido de colocar fluor nesse dente. Enquanto uns coletam informações preciosas, necessárias e ainda escassas, outros se mostram, com o que tem, o que são, com o sincero desejo de ir melhorando, de ir afinando o corpo, lapidando o diamante.

E assim iremos, uns copiando o outro que subiu no palco. Outros perguntando como é que aquele fez. Tudo pra chegar mais perto daquele ser etéreo, que começa a ter contornos: o doador e a doadora brasileiros. Eles nos darão o aplauso, o dinheiro, o apoio. A gente seguirá nossa missão, com ou sem estatueta. Mas curtindo a ideia.

 

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* Este artigo foi publicado primeiro na Captamos.

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